confissões de um pai

Andando entre tempo e o vento

 

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.

Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;

Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;

Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;

Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;

Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;

Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;

Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.”



Eclesiastes 3:1-8

 

Sabe, em muitos casos e ocasiões é sábio esperar pelo tempo certo, ou como preferem muitos, o tempo de Deus. Por outro lado, e como ensina a Bíblia, há tempo para tudo, tempo de esperar e tempo de fazer, etc. Creio que a prudência e certa sensatez são recomendáveis nessa nossa senda em busca de melhor saúde para nossos filhos.

De fato, é bom que Deus nos livre dos momentos errados, dos procedimentos inadequados ou precipitados. Com 24 anos de caminhada, nisso tudo, já vi muitas coisas, ouvi outras e tem a nossa própria experiência, que não é pouca.

Algumas vezes precisaremos levantar e ir à luta, enfrentar a situação adversa, antes que seja tarde. Talvez aconteça algo que necessite providências. O pessoal de saúde é formado por seres humanos e podem falhar, mesmo sem ter essa intenção e, na maioria das vezes em que falham, não tem.

Nossa atitude atenta, persistente e diligente sempre ajudará o processo como um todo, inclusive ao pessoal de saúde. Iniciativa e responsabilidade podem salvar nossos filhos, em muitas oportunidades, enquanto a omissão e/ou acomodação poderá até custar-lhes a vida. Importante é fazermos tudo que for possível ou até um pouco mais e, muitas vezes, ir a luta e não esperar pode ser a coisa certa a fazer.

Como pai de um cardiopata congênito já engoli sapos dezenas de vezes, ao ser tratado com desdém, descortesia ou mesmo ignorado por um ou outro profissional menos sensível. Também já perdi a conta dos erros, inclusive de gente ilustre. Talvez, a bem de nosso próprio filho, o mais prudente seja o silêncio. Mas em algumas ocasiões será necessário reivindicar direitos e deveres, também pelo bem dos nossos queridos.

Não sou a pessoa certa para carregar bandeira alguma, ainda tenho muito a fazer por meu filho e acho que já passei da idade de ser um revolucionário. Na última semana, aconteceram muitos desencontros e equívocos em relação ao que estava planejado para nosso filho. Creio que essas coisas não poderiam e não podem acontecer. Também falhei, nesse caso. Falhei por descuido, falta de atenção e até inocência, por avaliar mal a situação toda. Devia estar mais atento, desconfiar mais, perguntar e cobrar mais. Se alguém reclamasse, não se sustentaria diante do argumento de que o filho é meu e nós sabemos onde o calo aperta. No caso do Thomas isso é literal, pois ele está com um calo no pé que o está impossibilitando de andar, quase e nem isso o pessoal foi capaz de resolver.

Não é, e nunca será fácil. Há tempo para tudo, de lutar e de esperar, também. Compete a cada um descobrir a coisa certa a fazer. Deus abençoará sempre se acertarmos e se errarmos. Mas o erro sempre será consequencial.



About the author

Lou Mello

Fui pai de um cardiopata congênito por 25 anos. Meu filho mais novo, o Thomas Henrique nasceu em 11 de maio de 1988 com dupla via de saída no ventrículo direito, transposição dos grandes vasos na base, estenose da pulmonar com válvula atrésica, CIVs múltiplas e PCA aberto. Passou por três cirurgias, vários cateterismos, um monte de exames e tomou medicamentos a beça. Na primeira cirurgia construiram um Blalock, na segunda uma Emy Fontan cavo pulmonar e na última fizeram a correção total, com implante de uma válvula pulmonar humana dissecada. Após a cirurgia ficou internado na UTI por dez dias, quando faleceu, no dia 20 de abril de 2014, a 21 dias de completar 25 anos. Claro que o considero meu filho para sempre, onde quer que ele esteja, agora. Nosso trabalho com ele terminou, mas ele nos deixou a missão de apoiar os cardiopatas congênitos enquanto vivermos. Esse é o meu propósito principal de vida, enquanto viver.

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