Amigos do Thomas

Solidariedade generosa

 

Posso estar redondamente enganado, mas tenho sentido desconforto considerável em relação à nossa capacidade de solidariedade. Se não ardesse na minha pele, acho muito provável que não estaria escrevendo essas palavras agora. Não é fácil falar, digo, digitar sobre esse tema, pois sempre há um grupo, ainda que bem pequeno, de gente tola que continua sendo generosa indefinidamente. Imagino que eles saibam o quanto sou grato a eles e como desejo, do mais profundo do meu coração, que Deus lhes seja abundante em tudo. Creio que a generosidade seja o pré-requisito indispensável à solidariedade.

Lembro de um personagem Mark Greene do dinossáurico seriado de TV ER quando, à beira da morte, ele chama a filha e lhe entrega o legado fundamental à vida dizendo algo mais ou menos assim: “O mais importante na vida é a generosidade, então seja generosa com todos sempre”. Não sei se tenho sido suficiente generoso, em minha vida. Em minha autocrítica há a observação perfeccionista que diz: “você tem sido, mas poderia ser muito mais”.  Tentarei melhorar, prometo.

No início dos anos oitenta me deram a tarefa de coordenar a captação de recursos na Missão Portas Abertas junto à base brasileira. Lembro que cheguei a me espantar com a solidariedade generosa do povo, sobretudo os cristãos evangélicos, em favor daqueles que viviam em países onde não havia liberdade religiosa e sofriam, até na própria carne, para praticar suas crenças e religiões.

Hoje, vivemos momentos incríveis em que a generosidade solidária se esvai a cada dia. A começar do preconceito antirreligioso que conseguiram criar. Imagino que a Missão citada acima esteja tendo grande trabalho com seu programa de captação de recursos, bem como todas as organizações que carecem de doações para tocar seus projetos.

Meu negócio aqui é mais pessoal, certamente. Estou em um processo já deflagrado que envolve o tratamento do meu filho e inclui mais uma cirurgia de tórax, a terceira em seus quase 25 anos de vida, a maior parte vivendo como se fosse o garoto da bolha, dentro de nossa casa. Como é de conhecimento geral, minha renda se origina, ou pelo menos deveria, do meu trabalho de consultoria para organizações em fins lucrativos. Praticamente, não tenho tido clientes nos últimos anos e as palestras que ajudavam muito, tornaram-se escassas devido a dois fenômenos: Primeiro pelo aumento exponencial de candidatos a palestrar nessa área. Depois, devido à redução inexplicável da demanda. Então sobraram os bicos (conserto de computadores, palpites aqui e ali, etc.) e o aumento inacreditável das contas a pagar, atuais e passadas. Ainda não estou dentro dos requisitos para uma aposentadoria e nem sei se um dia estarei, embora tenha trabalhado bem mais de quarenta anos de minha vida.

Confesso que uma voz acusadora me acusa, dia e noite, que o culpado sou eu. Dou certa razão a ela. Identifico oportunidades, perdidas, escolhas equivocadas, avaliações precipitadas, injustiças praticadas, empenho deficiente, etc., ao longo da minha trilha.

O problema é que a vida continua companheiro. Não tenho a dose certa de heroísmo necessária para cometer atos tresloucados que outros, em meu lugar, são capazes. Também não sou muito bom em desonestidades e corrupções. Então, tenho passado por cima do meu orgulho e aceitado que parentes e amigos me ajudem, principalmente nas exigências relativas ao meu filho. Mas isso não é, e se depender de mim, não continuará sendo meu meio de vida. Só que as coisas estão acontecendo já, nesse momento, nessa semana e temo que elas não esperarão minhas possibilidades e sonhos se implementarem.

Então, clamo a Deus por um ou quantos milagres forem necessários. Antes de mais nada, pelo sucesso dessa cirurgia do meu filho, recuperação e tudo que a envolve e, também, pelo suprimento do que for estritamente necessário. A partir de amanhã jejuarei enquanto o processo durar e até fiz promessa (não nos moldes dar e ser-vos-á dado, mas por gratidão mesmo) de dar os anos que me restam ao ministério da Palavra e em favor dos cardiopatas congênitos, prioritariamente, onde há muito a fazer.

Embora, uma boa e excelente generosidade solidária seja bem vinda, não posso me dar ao luxo de contar com ela. Não seria justo e/ou ético. Por isso, só posso contar com Deus, nas suas três formas (Pai, Filho e Espírito Santo), pois ele se dispôs assim, em suas próprias palavras. Caso aconteçam atos de generosidade solidária por parte das pessoas (já houve um ou outro, até o presente momento), serão recebidos com humildade e gratidão, sem dúvida.

No mais, orem por meu filho, por minha esposa, por mim e por toda a nossa família, nos próximos dias, talvez semanas. Creio na sensibilidade divina em relação às nossas orações, principalmente quando elas se dão de forma irmanada.

Um beijão em vossas carecas e perucas

 

Lou Mello

 

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About the author

Lou Mello

Fui pai de um cardiopata congênito por 25 anos. Meu filho mais novo, o Thomas Henrique nasceu em 11 de maio de 1988 com dupla via de saída no ventrículo direito, transposição dos grandes vasos na base, estenose da pulmonar com válvula atrésica, CIVs múltiplas e PCA aberto. Passou por três cirurgias, vários cateterismos, um monte de exames e tomou medicamentos a beça. Na primeira cirurgia construiram um Blalock, na segunda uma Emy Fontan cavo pulmonar e na última fizeram a correção total, com implante de uma válvula pulmonar humana dissecada. Após a cirurgia ficou internado na UTI por dez dias, quando faleceu, no dia 20 de abril de 2014, a 21 dias de completar 25 anos. Claro que o considero meu filho para sempre, onde quer que ele esteja, agora. Nosso trabalho com ele terminou, mas ele nos deixou a missão de apoiar os cardiopatas congênitos enquanto vivermos. Esse é o meu propósito principal de vida, enquanto viver.

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