confissões de um pai

Agonia e êxtase do planeta beneficência


 

“Coitado do Anderson! Vai ser atendido pelo plantonista! E estamos no meio do feriado, todos os Staff devem estar viajando, só sobram os assistentes…. #queAzar
E achei ótimo o comentarista do canal combate indicando a cirurgia Hahahaha”

Esse comentário foi escrito (ele falava sobre a perna quebrada do lutador) no Facebook por uma médica cardiologista, com treinamento no INCOR e trabalhando na Beneficência Portuguesa de São Paulo, atualmente, onde meu filho Thomas faleceu em abril deste ano após uma desastrada cirurgia realizada pelo Dr. José Pedro da Silva sob o olhar complacente de sua equipe, na maioria, jovens recém formados. Ela fez parte da equipe que realizou o último cateterismo no Thomas em novembro de 2012 e concluíram, segundo insinuação do Dr. Salvador que coordenou aquele procedimento, que não seria indicado realizar qualquer cirurgia no estado em que ele se encontrava, especialmente pelo excesso de vasos colaterais encontrados na ocasião.

Após a cirurgia realizada (10/04/2013) meu filho foi internado na UTI Cardiolígica I, de onde só saiu uma vez (para uma intervenção de emergência para embolizar colaterais que estava subtraindo fluxos de sangue vitais em alguma parte do sistema circulatório) até falecer na madrugada do dia 20. Era um sábado e isso explica porque resolvi usar as palavras da doutora, acima. No dia 18, o Dr. José Pedro viajou, segundo informou a secretária dele, para Recife a fim de participar de uma conferência médica. No laudo assinado por ele, após o trágico acontecimento, ele afirma que estava em Florianópolis, naquele dia. Recife ou Florianópolis, ele havia abandonado meu filho à própria sorte. Como se não bastasse, ele levou a segunda cirurgiã e intensivista da equipe para viajar com ele. Por coincidência, ela é a esposa dele e no dia 20 ele comemoraria mais um aniversário, talvez o verdadeiro motivo da viagem.

Espera aí, você dirá, mas deve ter ficado alguém com competência para cuidar de seu filho. Pelo resultado, eu lhe diria: “parece que não foi o caso”. Ele cita no laudo sinistro, um médico intensivista que seria o responsável pelos trabalhos da UTI naqueles dias, inclusive pelo tratamento do meu filho. Durante aqueles dez dias, minha esposa e eu estivemos lá dentro da UTI duas vezes por dia e nunca vimos o tal médico citado por ele. Falamos com muitos, alguns conhecidos como pertencentes à equipe dele, mas muito jovens, com status de assistentes ou residentes e, sem a experiência que a cirurgia de grande porte realizada no Thomas exigia, muito provavelmente. Ficou patente, durante esse período de grande agonia que os intensivistas de fato eram o próprio Dr. José Pedro e a esposa dele. Sem eles, a vaca só poderia ir pro brejo, como de fato foi.

O fato é que ele escafedeu-se quando mais meu filho precisava dele. Se ele houvesse falecido com o Dr. José Pedro e/ou sua esposa junto dele fazendo todos os esforços possíveis para salvá-lo, seria a única postura aceitável. Não foi o caso. Na minha opinião de pai, houve flagrante negligência. Afinal, era sábado e aniversário do doutor. Para alguém do status dele, não bastava um jantarzinho em um daqueles pobres restaurantes do Paraiso ou Jardins, próximos do hospital que permitiriam seu pronto atendimento ao seu paciente com tal gravidade. Não, comemorar seu aniversário em Florianópolis foi mais apropriado, afinal não seriam molestados pelas necessidades de alguém que não era mais do que um caso, talvez até uma experiência em favor de casos futuros.

Para piorar, eles nos mantiveram o mais longe possível de nosso filho nesses dez dias. Nós não estivemos com ele nas últimas horas de vida dele, para segurar sua mão e orar por ele, ao menos. Só me deixaram vê-lo mais de uma hora depois de ter falecido, provavelmente para evitar que eu orasse a Deus e o criador resolvesse ressuscitá-lo, deixando claro quem é o verdadeiro Deus. Nunca se sabe o que um pastor seria capaz de fazer numa hora dessas, principalmente em favor do próprio filho. Apesar de Deus não ter salvo o próprio filho dele, quando teve a chance de fazê-lo, segundo dizem por aí.

Fui acusado de estar tentando denegrir o cidadão tão eminente como o Dr. Zé Pedro é considerado. Poxa, sou mesmo muito exigente, denegri-lo só porque ele deixou meu filho morrer, como se fosse uma planta ou reles animalzinho de estimação qualquer. Se ele tivesse agido bem, com excelência além de competência, zelando pela vida do meu filho até onde pudesse, eu o teria levado ao céu com minhas próprias mãos, certamente. Infelizmente, não foi o caso.

Então restou-me só o trabalho de alertar aos possíveis futuros pacientes do Dr. Zé Pedro e do hospital Beneficência Portuguesa para tomarem todas as precauções possíveis para evitar a repetição dessa história na vez deles. Bom lembrar que meu filho não foi o primeiro. Muitos outros tiveram a mesma sina, mas sabe como é no Brasil, médicos e políticos podem tudo, inclusive matar sem as devidas averiguações e investigações. Aqui o pessoal se contenta com estimativas tipo 3 em dez, ou seja, três mortes em cada dez operados. Sabe, isso significa trinta por cento e é um índice inaceitável. Certamente você não desejará correr um risco tão grande, a não ser em caso de extrema urgência.

Visitei a Hípica de Santo Amaro e a Hípica Paulista e, recentemente, assisti um longo documentário na TV sobre o tratamento de cavalos. Eles ficam alojados em prédios onde há baias individuais e tratamento individualizado. Nas nossas UTIs, salvo raríssimas exceções, as pessoas são alojadas em uma única sala, geralmente 50 ou até 90, divididos unicamente por cortinas de pano. Nessa UTI, onde meu filho faleceu, eu constatei pessoalmente a presença de insetos voadores, algo bem estranho em um lugar desses. Isso para dizer o mínimo.

Há muito mais procedimentos e situações acontecendo durante o tratamento dos cardiopatas congênitos que precisamos nos inteirar sobre sua periculosidade e grau de riscos envolvidos. Por exemplo, vocês sabiam das consequências advindas de cirurgias como a Fontan? Certamente não sabem, simplesmente porque eles não nos falam a respeito. Vou dizer-lhe só três: Quem recebe uma Fontan está sujeito a desenvolver colaterais, um doença autoimune que com o tempo dará cabo da pessoa, se não forem neutralizados a tempo. Um em cada três operados com Fontan desenvolverá uma doença chamada enteropatia e estará sujeita a viver de aplicações de albumina duas a três vezes por semana, enquanto viver e se tiver a sorte de morar em um grande centro onde isso é possível.

Na média, as cirurgias de grande porte tem prazo de validade de dez anos apenas. Depois vem as reoperações e o Deus nos acuda, como aconteceu com meu filho. Tudo bem, você dirá, melhor ter nosso filho conosco por dez anos do que perdê-lo imediatamente. Não sei se é assim que funciona, infelizmente.

Não estou querendo acabar com a carreira do Dr. Zé Pedro, apesar de tudo. Certamente ele é um cirurgião importante. Mas advirto que ele tem um ego enorme, se pensa um deus e é bastante arrogante, não no trato, mas na auto imagem. Isso faz com que menospreze o trabalho em equipe, por exemplo. A equipe dele vetou a cirurgia do meu filho em setembro de 2012, considerando-a imprópria no estado em que ele se encontrava. Na cirurgia e no período pós operatório não houve a participação daquele pessoal contrário, que eu saiba.

Se ele aprendesse algo com casos como o do meu filho que lhe desse alguma humildade e, além disso, decidisse nunca mais abandonar um paciente grave antes da hora, e trabalhasse em equipe, mas uma equipe de respeito, com bons clínicos, de larga e comprovada experiência de todas as áreas afins, quem sabe ele ainda pudesse ser muito útil. Ele continua trabalhando lá na Beneficência, com aquela mesma equipe e a UTI pocilguenta de sempre, mas sem apresentar essas mudanças, se não me engano.

Enquanto puder, estarei aqui ativando a memória de todos sobre esses detalhes para manter todos bem espertos. Espero que as outras vítimas do Dr. Zé Pedro e de outros admiráveis doutores também deem o ar da graça, ao invés de ficar me denegrindo por aí, como fez a secretária dele me chamando de louco.

Talvez a dor de ter perdido um filho tão amado enlouqueça, sobretudo agravado por tantos equívocos e atitudes desnecessárias, desrespeitosas ou o que valha.

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About the author

Lou Mello

Fui pai de um cardiopata congênito por 25 anos. Meu filho mais novo, o Thomas Henrique nasceu em 11 de maio de 1988 com dupla via de saída no ventrículo direito, transposição dos grandes vasos na base, estenose da pulmonar com válvula atrésica, CIVs múltiplas e PCA aberto. Passou por três cirurgias, vários cateterismos, um monte de exames e tomou medicamentos a beça. Na primeira cirurgia construiram um Blalock, na segunda uma Emy Fontan cavo pulmonar e na última fizeram a correção total, com implante de uma válvula pulmonar humana dissecada. Após a cirurgia ficou internado na UTI por dez dias, quando faleceu, no dia 20 de abril de 2014, a 21 dias de completar 25 anos. Claro que o considero meu filho para sempre, onde quer que ele esteja, agora. Nosso trabalho com ele terminou, mas ele nos deixou a missão de apoiar os cardiopatas congênitos enquanto vivermos. Esse é o meu propósito principal de vida, enquanto viver.

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