Amigos do Thomas

Há um ano, em 09 de abril de 2013


Levamos nosso filho Thomas para São Paulo, com o objetivo de interná-lo no hospital Beneficência Portuguesa. No dia seguinte ele seria submetido à uma cirurgia (a terceira) no aparelho circulatório. Fizemos isso de livre espontânea vontade, usamos nosso próprio automóvel, conduzido por mim e com minha esposa a meu lado. Acima de tudo, nosso filho estava disposto a submeter-se a aquilo.

Depois dos ajustes burocráticos, tivemos uma reunião da qual participaram o cirurgião e dois de seus auxiliares de um lado e o Thomas e eu de outro. O médico, considerado o Number One do Brasil na especialidade, explicou o que pretendia fazer na operação: Reparar a válvula Pulmonar utilizando um implante de ser humano tratada adequadamente para tanto, em substituição à original e mais alguns ajustes circunstanciais. A cirurgia não deveria ultrapassar o tempo de quatro horas.

O Thomas foi encaminhado para um apartamento e nós seguimos com ele, onde permanecemos até o dia seguinte, quando o acompanhamos até a porta de entrada para o Centro Cirúrgico.

O Thomas tinha enorme esperança naquele procedimento. Sonhava com a possibilidade de, finalmente, poder levar uma vida normal, igual a de qualquer jovem de sua idade (24 anos, 10 meses e 29 dias). Evidentemente, havia algum temor nele, mas muito menos do que o esperado. O doutor, estranhamente, estava prometendo até mais do que o esperado, segundo ele, nosso filho ainda jogaria muito basquete. Embora o doutor não confirmasse, havia em todo o pessoal da equipe e em nós também, a desconfiança de que ele fizesse uma cirurgia maior, dependendo das circunstâncias encontradas, ou seja, desconstruir a cirurgia anterior e fazer uma correção total do problema, colocando tudo no lugar original. Segundo os entendidos, se havia alguém com a capacidade de fazer uma cirurgia desse tipo (pouco provável e recomendável para os outros profissionais do bisturi na área) esse alguém era o tal doutor.

No quarto havia a cama hospitalar do paciente, um sofá e uma cadeira daquelas super confortáveis com mecanismos especiais e outros móveis necessários. O Thomas foi alojado na cama, a Dedé acomodou-se no sofá, então eu fui para a poltrona, a única opção restante. Depois que minha sogra saiu, a única e última visita naquele dia, não aconteceu nada incomum, mas não dormi, exceto uma ou outra pescada, sobretudo, Deus não visitou o Thomas, pelo menos não de forma aparente, que eu tenha visto.

Até hoje lembro daquela noite e não me conformo por não ter pego meu filho em meus braços e junto com a Dedé, sequestrado ele dali. Infelizmente, essa ideia não me passou pela cabeça, nem por uma fração de segundo, a não ser depois de tê-lo perdido.

Todos nós queríamos ele sarado, talvez até Deus.

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About the author

Lou Mello

Fui pai de um cardiopata congênito por 25 anos. Meu filho mais novo, o Thomas Henrique nasceu em 11 de maio de 1988 com dupla via de saída no ventrículo direito, transposição dos grandes vasos na base, estenose da pulmonar com válvula atrésica, CIVs múltiplas e PCA aberto. Passou por três cirurgias, vários cateterismos, um monte de exames e tomou medicamentos a beça. Na primeira cirurgia construiram um Blalock, na segunda uma Emy Fontan cavo pulmonar e na última fizeram a correção total, com implante de uma válvula pulmonar humana dissecada. Após a cirurgia ficou internado na UTI por dez dias, quando faleceu, no dia 20 de abril de 2014, a 21 dias de completar 25 anos. Claro que o considero meu filho para sempre, onde quer que ele esteja, agora. Nosso trabalho com ele terminou, mas ele nos deixou a missão de apoiar os cardiopatas congênitos enquanto vivermos. Esse é o meu propósito principal de vida, enquanto viver.

2 Comments

  • Lou, não há palavras a acrescentar às suas. Penso algo parecido com o fim do seu texto ao me lembrar do dia em que levei meu esposo ao Hospital Dante Pazzanese, local onde ele faleceu. Esse momento doloroso ninguém pode apagar, a não ser na eternidade. Que o bálsamo de Gileade nos cure. Abraços.

    • Sônia, muito obrigado por suas palavras de apoio e consolo, apropriadas para nós dois e nossas famílias. Deus a abençoe abundantemente e sempre. Abraço pra você, igualmente.

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