confissões de um pai

Até quando?

Kaiki filho de Patrícia Cimirro

Até quando sofreremos essas partidas precoces dos Kaikis e Thomas? Não te dás conta da dor imensa que nos invade a cada vez? Deus, não posso imaginar que seja esse um plano teu. Não há bondade, generosidade e, nada de alegria nisso. Se não me engano, Senhor, tens que perdoar quem apregoa bobagens como o Senhor deu, o Senhor tirou. Como viveremos sem eles, agora?

O Thomas nos foi tirado há quatro anos e o Kaiki agora. Entre um e outro, centenas foram também. Até quando Senhor? Não, nada que exista ou que conheça me consolará. Se há consolo, está muito bem guardado de nós. Comigo só dor e lamento. Sou a prova viva de que nossas religiões não nos bastam. Hoje a Patrícia e seus familiares, certamente um pai, irmãos, avós… estão perguntando onde anda nosso Deus que lhes negou a vida de seu filho querido.

Não, são nossas falsas crenças, certamente. Será certo odiar os que foram “abençoados” ao suportarem suas cirurgias e continuarem vivos? O Thomas viveu dezessete anos após a Fontan dele.  Que bênção disseram todos. Então por que nos tiraram ele, depois? Pior foi frustrar a esperança dele.

O Kaiki foi para a cirurgia feliz, como testemunharam os que o viram. Essa é a realidade e nós não sabemos nada.

Algumas pessoas, recentemente testemunharam aqui sobre filhos com 19 anos, com coração univentricular que até hoje não foram submetidos a cirurgia alguma e estão bem. Claro que isso nos alegra e nos enche de esperança. Quem estaria mentindo? Droga!

Deus, quero ver agora se vais consolar esses pais. Pior, se vais cuidar do Kaiki onde quer que ele tenha sido enviado. Nós, minha esposa , meus filhos e eu estamos até hoje sem consolo. Muito menos ainda em termos qualquer notícia do Thomas, ou tudo que nos permitiu aprender não existe?

Nós nunca saborearemos uma vitoriazinha só para variar? Caramba, tenha misericórdia de nós. Se somos nós os culpados, então nos levasse para onde quer que fosse. Por que nos mais inocentes?

Tá difícil testemunhar por ti, nos ajude, se desejar melhorar sua performance. Ao menos, livra-nos dos impostores, cuja única verdade seja nos usar para seus intentos um tanto desumanos. Raça de víboras!

About the author

Lou Mello

Fui pai de um cardiopata congênito por 25 anos. Meu filho mais novo, o Thomas Henrique nasceu em 11 de maio de 1988 com dupla via de saída no ventrículo direito, transposição dos grandes vasos na base, estenose da pulmonar com válvula atrésica, CIVs múltiplas e PCA aberto. Passou por três cirurgias, vários cateterismos, um monte de exames e tomou medicamentos a beça. Na primeira cirurgia construiram um Blalock, na segunda uma Emy Fontan cavo pulmonar e na última fizeram a correção total, com implante de uma válvula pulmonar humana dissecada. Após a cirurgia ficou internado na UTI por dez dias, quando faleceu, no dia 20 de abril de 2014, a 21 dias de completar 25 anos. Claro que o considero meu filho para sempre, onde quer que ele esteja, agora. Nosso trabalho com ele terminou, mas ele nos deixou a missão de apoiar os cardiopatas congênitos enquanto vivermos. Esse é o meu propósito principal de vida, enquanto viver.

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