Confissões de Mãe

Testemunho de *Janaina Souto

Written by Lou Mello

De fev/abr de 20040- 22 de dezembro às 19:27

Estava com Larissa no pós operatório do Fontan (3ª cirurgia) Foi um pós operatório aterrorizante. Vivi cenas de ficção, filme, novela…um enredo bem conturbado. Quero tratar de um dia em especial. Vou contextualizar:

Contextualizando: Larissa estava com 2 anos. Teve forte crise de abstinência na UTI. Os movimentos involuntários e tremores estavam controlados. Restavam a dificuldade para dormir e os terrores noturnos. Já estávamos na Semi-UTI (um quarto ainda no setor de UTI).
Larissa estava muito magra e debilitada. S

empre de semblante fechado, até mal humorada. Não falava – o único som que emitia era quando gritava nos terrores noturnos. Apesar de insistir com TV e janela , ela se mantinha de ‘cara virada’. Pensei: tem algo errado! Fiz uns testes: me afastava e me aproximava em silêncio sem ter dela qualquer movimento ou reação. Fazia o mesmo falando e ela me ‘procurava’. Guardei em silêncio por uns 2dias, até que pela manhã a chefe da UTI (Dra. Kátia) me pergunta:
‘- e aí, mãe, tudo bem por aqui?’
eu ‘-não, doutora. Larissa está cega!’
expliquei meus testes. Repeti na frente dela. Balancei um chaveiro com uma miniatura de boneca diante dos olhos de Larissa e nada… encostava a bonequinha e era o suficiente para ela agarrar e dedilhar cada detalhe do chaveiro. Aquele dia todos que ent

ravam no quarto queriam entender e testavam com colares, objetos, silêncio, movimento… – Sim, ela não está enxergando. Vamos solicitar exames, parecer de oftalmo e neurologista. Fizemos os exames a tarde. Mainha e eu estávamos praticamente mudas no quarto. O oftalmo confirmou que ela não estava enxergando, mas não via motivo aparente. Aguardávamos o parecer do neuro .
Às 23h bateu a porta um trio de trovadores com um violão e cantaram COMO È GRANDE MEU AMOR POR VOCÊ. Lembro que chorei em silêncio. Agradeci engasgada e disse: obrigada! Pensei que era o neurologista. Ela está seca e estamos aguardando parecer. Que bom que vieram. Obrigada.
Eu estava em um hospital tido de elite.

Situado em bairro de elite. Era comum ver Adriane Galisteu e Jô Soares usando o heliporto e cruzando os corredores. Os vitrais do hospital são lindos. Os corredores, poltronas, a escadarias são de encher os olhos. Aprouve ao Senhor me permitir estar ali, aos meus olhos eu não teria condições financeiras de arcar,

mas correu tudo dentro do possível. Mas o que quero dizer é que eu estava carente. Estava num hospital de ‘grã-fino’, mas era uma pobre, cega e nua… carente de tanta coisa: apoio, abraço, carinho, dinheiro, comida, roupa, palavra… bem verdade que tudo me foi providenciado.

A imagem pode conter: 4 pessoas, pessoas sorrindo, pessoas em pé

As vezes ouço de pessoas : ‘não precisa de presentinho para essa ala porque é de plano! ‘ ‘Música nessa ala só se eles quiserem porque é de plano! ‘ Como se carente fosse só SUS. Doença é coisa que iguala todos. Na enfermidade rico e pobre estão na mesma dura situação de diagnóstico ruim. Em hospital de grã-fino ou do SUS, ambos estão por necessidade, carência, não por opção.
Aplaudindo o grupo da Terceira que foi em hospitais públicos e privados do DF – todos são carecedores da mensagem do natal – Nasceu Jesus, o Salvador!
*foto dos trovadores é ilustrativa. O trio que me visitou também estava caracterizado assim.

Seguiu-se esse diálogo entre Janaina e eu:

 Luiz Henrique Mello Lou Legal, sempre peço para o pessoal escrever seus testemunhos para publicarmos, mas poucos o fazem. Agora, você pretende postar o final da história? Fiquei curioso. Se autorizar, gostaria de compartilhar no meu blog/site.

Responder21h

Janaina Souto a vontade, Lou! queria destacar a questão do estar sem algo – ainda que momentâneo. costumamos associar a carência a falta de recursos financeiros, mas carência pode ser falta de tanta coisa… e justamente por isso acho importante estender ações também a hospitais privados. Os presentes que levamos são simbólicos. custam menos de R$ 3,00, gosto mesmo é do gesto, da musica, do teatro.
Responder19h
Luiz Henrique Mello Lou Mas a visão de sua filha foi restaurada?
Janaina Souto sim… concluímos que fazia parte da abstinência as drogas.
* Ops:   Janaína Souto é super ativista em favor dos cardiopatas congênitos e representa a organização Pequenos Corações.

About the author

Lou Mello

Fui pai de um cardiopata congênito por 25 anos. Meu filho mais novo, o Thomas Henrique nasceu em 11 de maio de 1988 com dupla via de saída no ventrículo direito, transposição dos grandes vasos na base, estenose da pulmonar com válvula atrésica, CIVs múltiplas e PCA aberto. Passou por três cirurgias, vários cateterismos, um monte de exames e tomou medicamentos a beça. Na primeira cirurgia construiram um Blalock, na segunda uma Emy Fontan cavo pulmonar e na última fizeram a correção total, com implante de uma válvula pulmonar humana dissecada. Após a cirurgia ficou internado na UTI por dez dias, quando faleceu, no dia 20 de abril de 2014, a 21 dias de completar 25 anos. Claro que o considero meu filho para sempre, onde quer que ele esteja, agora. Nosso trabalho com ele terminou, mas ele nos deixou a missão de apoiar os cardiopatas congênitos enquanto vivermos. Esse é o meu propósito principal de vida, enquanto viver.

2 Comments

  • Sou mãe de um cardiopata de 8 messes, no dia 04 de dezembro ele fez sua segunda cirurgia ( gleen), ele tem um ventrículo único com transposição de grandes vasos, graças a Deus que tem sido misericordioso conosco, a cirurgia foi boa sem intercorrência, o pos operatório foi tenso e preocupante pois havia um líquido em volta do coração dele, e o dreno demorou a ser tirado, mais uma vez Deus tomou conta dele e deu tudo certo, estamos em casa e o meu Gabrielzinho está bem. Só tenho a agradecer a Deus!

    • Oi Juliana
      Obrigado por dar seu testemunho super importante para o pessoal.
      Deus abençoe você e o Gabrielzinho abundantemente, sempre.
      Feliz Natal e um próspero ano novo em 2018.
      Forte abraço.
      Lou H. Mello

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