Projeto Coração Valente

Se não tirar as ideias que tens remoendo dentro de seu peito, isso poderá te matar.

Thomas Henrique

Segundo Tomé, essas palavras foram ditas por Jesus e estão escritas nesse evangelho apócrifo.

Este ano (2018) decidi usar a minha jornada pelos dias 09 a 21 de abril para deixar o grande sofrimento de minha vida sair de dentro do meu peito, como tenho feito nos últimos cinco anos, após meu filho caçula Thomas nos deixar em definitivo.

Algumas pessoas mais corajosas ou donas de uma capacidade maior de sinceridade vieram a mim deixando claro suas estranhezas por eu compartilhar essa minha grande aflição, ano após ano.

Geralmente, espera-se a resignação e até uma grande introspecção de alguém em aflição pela perda de algum ente querido. Não é um dogma ou uma lei constante de alguma carta magna ou de uma constituição. É mais um daqueles códigos secretos dos quais ninguém fala, mas cumpre.

O Thomas viveu conosco quase vinte e cinco anos, faltaram só vinte dias para completar essa soma. Durante esse tempo, passou por três cirurgias de tórax aberto, dezenas de cateterismos, centenas de injeções, exames de sangue, exames de imagens, etc., e as hemodiluições (também conhecidas por sangrias) dos últimos tempos. A maior parte desse tempo ele passou dentro de casa. Era quase o menino da bolha, só faltou a bolha. Que me lembre, só esteve em uma praia uma vez. Chegou a se apaixonar via amor platônico uma ou duas vezes, mas morreu casto. No resto do tempo, virou um baita operador de PC, com um conhecimento acima da média em produção de vídeos.

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Aprendi muito com ele. Também se tornou uma enciclopédia a respeito do Cheesperito (O Shakespeare mexicano) criador da Turma do Chaves, Chapolin Colorado e outros. Tratou de gravar e distribuir em DVDs, gratuitamente, os episódios não apresentados pelo sovina dono do SBT. No pequeno espaço ocupado por ele, fez uma grande e rica vida. Dificilmente haverá outros assim e cheios de felicidade.

Nós gostamos mais das pessoas sofredoras incapazes de dividir suas dores com as outras. Conversamos entre nós sobre a força e capacidade de carregar esse peso sem molestar ninguém. No máximo, aceitamos uma consulta com o psicólogo, sem direito a relatar como foi a conversa com Dr. Freud.

English: Sigmund Freud
English: Sigmund Freud (Photo credit: Wikipedia)

Alguns ainda aceitam saber qual o ansiolítico receitado pelo psiquiatra, outros preferem não saber.

O fato é, você não acreditará ou quase, mas há pessoas cuja decisão nessa hora é manter a dor da perda de um filho, uma mãe, um pai, etc., muito bem guardada dentro de seus peitos frágeis, pois revelar não é aceito como algo próprio para pessoas bem-educadas e/ou polidas. Eles até expressam aos outros seus desprezos por alguém capaz de revelar seu sofrimento em algum Facebook da vida atual.

Particularmente, tento escrever sobre minha cruz, nas redes sociais, sem dar ouvidos a todo volume, embora isso seja difícil. Sou um tanto metódico quanto a esse ponto. Se escreveu um comentário, não deixo sem resposta, mesmo sendo um simples “obrigado fulano/a! Um abraço.”

Quando o Thomas se foi, fiz questão de inserir a comunicação no meu perfil Facebook. Muitas pessoas deixaram seu recado. Quando digo muitas pessoas, estou querendo dizer, centenas, talvez milhares. E mesmo com a dor horrorosa naquele momento, fiz questão de responder a todos. Se não respondi alguma, foi sem querer.

A razão porque faço e fiz isso é para não morrer. O Thomas avisou a Dedé para tocar a vida à frente, caso ele faltasse. Imagino ser essa a vontade dele para todos nós, além da mãe, seus irmãos, avós, amigos, etc.

Ninguém, dentre os humanos, conseguirá sobreviver carregando uma cruz tão pesada como essa. Jesus sabia muito bem o que estava dizendo. Diria mais, não tente, você pode conseguir se matar. Nesse caso você estará traindo um filho amado, agora perdido, portanto você não poderá obter qualquer perdão dele e pior, ficará em falta com o filho amado de Deus.

Sabe, gente como eu experimentou e continua experimentando um tantinho do martírio sentido por Deus. Faz ideia da dor de Deus, podendo salvá-lo, entregá-lo para salvar a humanidade do fim perpétuo? Pois é, minha dor é imensamente menor em relação a dor do Pai, mas é um privilégio de poucos. Você não faz ideia sobre o que sei agora, a respeito da morte e da vida. De Deus e seu Filho Salvador e das boas novas do Reino vindouro.

Falta dizer mais algum motivo de sofrimento, quando deveria trazer alegria e júbilo; há um desinteresse Maduro por essa imensa riqueza. Só quem saltou a fogueira e queimou a bunda sabe o valor da minha, ou da nossa, experiência. Mas nós estamos nos juntando a Cristo como párias. Gente preferidamente marginalizada. Elas preferem um entardecer mais exótico ou belo, quem sabe uma excentricidade inglesa qualquer, manifestando sua indiferença por nós.

                                        Vídeo montado pelos amigos

Em meio aos manifestantes desses dias, há outros tão ricos quanto eu estou por ter recebido um dos maiores tesouros do Reino de Deus. O Thomas nos deu isso e não se trata de uma recompensa, mas o acontecimento, em sua forma inesperada para nós, redundou nesse galardão celestial.

“Aquele que encontrou a si mesmo, o mundo não é digno dele”.

Jesus, no Evangelho de Tomé

 

No porvir, o Thomas renascerá da água e da terra.

 

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