Homenagem

Dia do Coração Partido


Neste domingo comemora-se, por toda a comunidade consumista O Dia dos Namorados. Por uma coincidência, dessas que nem a Bíblia poderia explicar, o Senado brasileiro instituiu no mesmo dia do ano o Dia da Conscientização da Cardiopatia Congênita. De fato, há aí uma certa coincidência, ou seja, namorados são seres com sérios problemas no coração e os cardiopatas congênitos também. A diferença é que o primeiro é emocional e o outro, físico.

Para mim, o Dia dos Namorados não diz muita coisa, tirando o fato de que Dedé e eu somos eternos namorados e, portanto, deveria ter preparado algum tipo de surpresa nos moldes beleza americana para dar-lhe algum susto bem dado, nesse dia. Para nós, o dia dos Namorados é, apenas, mais uma oportunidade para evidenciar minha incompetência na área do empreendedorismo. Mais uma vez, mal conseguirei assegurar as três refeições básicas do dia. Sendo assim, diamantes e brilhantes estarão fora de cogitação.

Sei de um gringo que quis fazer uma surpresa para a namorada no Valentine’s Day (Correspondente norte americano ao nosso Dia dos Namorados) e contratou um piloto para dar um vôo rasante na casa da namorada puxando uma faixa com os dizeres: Te amo para sempre querida. Na hora do show, houve uma pane no avião e ele caiu bem em cima da casa da guria, que só não morreu porque estava na casa do melhor amigo dele, na hora do acidente, traindo-o. O piloto perdeu um braço, ela a casa e ele a namorada. Só o melhor amigo saiu ganhando, afinal, para que servem os melhores amigos?

Então resta-nos comemorar o Dia da Conscientização da Cardiopatia Congênita. Pensei em acordar e dar um bom abraço no meu filho, cumprimentando-o por ser um excelente cardiopata congênito, portador de uma cardiopatia congênita como poucas (Dupla via de saída do ventrículo direito e suas ramificações), com duas cirurgias de tórax, mais uma em planejamento, um monte de cateterismos, exames e palhaçadas do pessoal sem escrúpulo de plantão, mas abdiquei disso, por considerar de mau gosto. Aqui em casa há consciência da Cardiopatia Congênita para dar e vender. No Jornal Bom Dia local de hoje saiu uma matéria imprecisa sobre as Cardiopatias Congênitas e como elas são encaradas por aqui e nós saímos na foto e em algumas partes do texto. Se tiver paciência de folhear o jornal, irá encontrar.

Pessoal fica dizendo para nós sairmos da Gruta e cair na gandaia do consumo. Não perca um bom dia de consumação só para provar que está certo. A Gruta é lugar de endividados, gente que não tem mais direito a consumir. Alguns me viam como um insano querendo bancar uma nova versão de Davi em sua luta titânica contra Saul, representado por reis ímpios (pastores, professores, políticos, empresários, etc.) de nossos tempos, mas isso não poderia representar engano maior. Entre os endividados estou e com currículo dos mais intensos.

Então, como os outros, meu lugar é aqui, até que algum Davi de plantão nos guie para fora com dignidade. Enquanto isso ficaremos aqui com nossos corações partidos.

OPS: Originalmente publicado na Gruta.

About the author

Lou Mello

Fui pai de um cardiopata congênito por 25 anos. Meu filho mais novo, o Thomas Henrique nasceu em 11 de maio de 1988 com dupla via de saída no ventrículo direito, transposição dos grandes vasos na base, estenose da pulmonar com válvula atrésica, CIVs múltiplas e PCA aberto. Passou por três cirurgias, vários cateterismos, um monte de exames e tomou medicamentos a beça. Na primeira cirurgia construiram um Blalock, na segunda uma Emy Fontan cavo pulmonar e na última fizeram a correção total, com implante de uma válvula pulmonar humana dissecada. Após a cirurgia ficou internado na UTI por dez dias, quando faleceu, no dia 20 de abril de 2014, a 21 dias de completar 25 anos. Claro que o considero meu filho para sempre, onde quer que ele esteja, agora. Nosso trabalho com ele terminou, mas ele nos deixou a missão de apoiar os cardiopatas congênitos enquanto vivermos. Esse é o meu propósito principal de vida, enquanto viver.

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