confissões de um pai

Meu primeiro cardiopata congênito


Muitos pensam que a cardiopatia congênita passou a fazer parte de minha vida há pouco mais de 24 anos, quando meu filho Thomas nasceu com seu aparelho circulatório mal formado. Mas não é verdade. Quando eu tinha meus sete anos, meus pais adquiriram uma casa lá no Jardim Prudência. Naquele tempo (1959) o lugar era considerado a bacia das almas, onde você compra o que sobrou quase na hora de fechar.

Para chegar até a casa era fácil, embora longe. Depois do aeroporto, seguíamos pela Washington Luís até o início da Rua das Flechas, ai, tomando todo cuidado para não ser flechado, andávamos cerca de um quilômetro e pimba, bastava entrar a direita na Rua Sebastião Andrade Bonani e encontrar a nossa casa, no número 255, alias, uma das poucas casas da rua, naquela época. Bem na esquina da nossa rua com a Rua das Flechas, havia a casa do Dr. Osmir Strasburg, o melhor Clínico Geral que já conheci e que, entre outras coisas, também fazia o serviço telefônico comunitário grátis, naqueles tempos, pois era a única casa com telefone por ali. Bem em frente à casa do Dr. Osmir, havia uma marcenaria com uma lojinha na frente. O negócio que pertencia a uma família de portugueses que morava no andar de cima da loja. Fazia parte dessa família o Zé Cláudio, o melhor jogador do nosso time de futebol em campo inclinado.

Entre outras coisas, o Zé Cláudio era portador de uma cardiopatia congênita. * Ele foi o primeiro cardiopata congênito que conheci. Na década de sessenta ele foi operado no Hospital das Clínicas. Naquele tempo ainda não havia o INCOR, hoje o departamento especializado em cardiopatias daquele hospital. É provável que o Dr. Euryclides J. Zerbini tenha sido um dos cirurgiões, junto com o Dr. Adib Jatene.

No natal, de um daqueles anos, ganhei uma bicicleta (eufemismo de bike) Calói. Com ela tornei-me o melhor ciclista do mundo, pelo menos em minha avaliação. Na caminhada para chegar a esse titulo, aconteceram alguns acidentes. Não se iluda, não há bons ciclistas que não tenham dado uma de Papa, ou seja, beijado o chão, várias vezes e eu não fui a exceção. Pouco depois de ganhar a bicicleta, nossa turma resolveu ir até o Jardim Marajoara (lugar onde castiguei o Clidinho e o Emerson Fitipaldi, várias vezes… no kart) para uma corrida de carrinhos de rolimã. Claro que eu não me rebaixaria a tanto, sendo proprietário de uma Calói zero quilômetro. Naqueles dias, o meu carrinho de rolimã jazia esquecido em algum canto do nosso depósito de tranqueiras. Uma vez no local da corrida, no início de uma ladeira íngreme e cheia de curvas, os carros foram alinhados. Eu com minha Calói posicionei-me logo atrás, para dar uma lambuja a aqueles pobretões. Como o Zé Cláudio também estava sem carrinho, pois sua família não lhe permitia ter um, por segurança, afinal ele era um cardiopata congênito, convidei-o a participar como meu copiloto, ocupando acento no bagageiro da minha bicicleta. Assim foi feito. Dada a largada, em segundos tomamos a dianteira do pelotão, até a primeira cura, quando o bagageiro (um assessório acrescentado pós compra) soltou-se impedindo que o Zé Cláudio fizesse a curva junto comigo e voasse na direção oposta, seguindo-se estrondoso tombo.

Custei a frear, fazer a volta e me aproximar dele. Lembro que senti um frio na espinha jamais experimentado antes. Ele estava gemendo (o que já era um bom sinal), suas pernas e braços, completamente ralados, fora algumas marcas na testa e no queixo, que logo estariam sangrando, mas respirava bem. Prendi o bagageiro de novo, mas não quis arriscar mais com aquela geringonça e pedi para o pessoal ajudar o Zé a sentar-se de lado no cano do quadro da bicicleta bem à minha frente. Assim ele ficou entre os meus braços e isso serviu como o cinto de segurança para ele. Acho que levava, normalmente, uns quarenta minutos de bicicleta do Marajoara até a casa dele, cortando caminho pela Vila Nova Caledônia. Devo ter feito o percurso em algo aproximado dos vinte minutos. Nesse tempo, tentei preparar-me para a bronca (ou pior) que tomaria dos pais do Zé, coisa que nunca aconteceu. Ele foi levado ao Pronto-Socorro, nas Clínicas e, graças a Deus, nada mais grave aconteceu com ele. A família me tomou por herói e bom amigo, depois daquilo.

O detalhe é que, mal sabia eu, aquele incidente serviu como meu primeiro treinamento para futuro guardador de cardiopatas congênitos, e de um em especial, meu filho. Antes do Zé Cláudio, eu nunca ouvira falar que pessoas poderiam nascer com má formação congênita no coração ou em qualquer parte do corpo.

De alguma forma, sei que recebi o privilégio de cuidar de um deles e ajudar muitos com a minha experiência. Posso não entender bem isso agora, mas sei que um dia isso fará todo o sentido. Claro que gostaria de fazer muito mais por meu filho e também pelos outros, especialmente os que buscam ajuda através do site. Se não faço mais, deve-se às minhas limitações. Só Deus poderá alargar meus horizontes, permitindo-me voos mais altos em favor dos cardiopatas congênitos. Entre outros sonhos, gostaria de chegar a ajudar os cardiopatas congênitos africanos, também, de alguma forma. Segundo consta, na África há muitos mais do que por aqui, com muito menos recursos, se é que isso seja possível.

Quem sabe, ainda consigo, com a ajuda de Deus e de um grupo de pessoas sensibilizadas como eu, minha família e, talvez, você.

* Foto do Zé Cláudio no terraço de nossa mansão de verão na Vila Mirim



About the author

Lou Mello

Fui pai de um cardiopata congênito por 25 anos. Meu filho mais novo, o Thomas Henrique nasceu em 11 de maio de 1988 com dupla via de saída no ventrículo direito, transposição dos grandes vasos na base, estenose da pulmonar com válvula atrésica, CIVs múltiplas e PCA aberto. Passou por três cirurgias, vários cateterismos, um monte de exames e tomou medicamentos a beça. Na primeira cirurgia construiram um Blalock, na segunda uma Emy Fontan cavo pulmonar e na última fizeram a correção total, com implante de uma válvula pulmonar humana dissecada. Após a cirurgia ficou internado na UTI por dez dias, quando faleceu, no dia 20 de abril de 2014, a 21 dias de completar 25 anos. Claro que o considero meu filho para sempre, onde quer que ele esteja, agora. Nosso trabalho com ele terminou, mas ele nos deixou a missão de apoiar os cardiopatas congênitos enquanto vivermos. Esse é o meu propósito principal de vida, enquanto viver.

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