A Família Capelania

A Âncora para a vida

Uma Prova do Céu


Sabe, tenho pensado muito e avaliado os acontecimentos relacionados ao meu filho Thomas e quais as lições a serem aprendidas com tudo isso. Algum tempo antes da cirurgia fatídica, tivemos uma consulta/reunião com o Dr. Zé Pedro, no consultório dele lá na Beneficência Portuguesa. Participaram, além de meu filho e do cirurgião, minha esposa Dedé, um médico cujo nome desconheço e eu. Houve ali uma conversa franca entre o Thomas e o Zé Pedro e, entre várias condições impostas, de lado a lado, o Thomas reivindicou a presença em período integral da mãe na UTI durante o período de recuperação, após a cirurgia. Todos nós ouvimos em alto e bom som o Zé Pedro declarar: Eu darei uma autorização para sua mãe ficar com você na UTI, enquanto você precisar ficar internado lá.

Tal promessa nunca se cumpriu, muito menos no momento mais delicado, ou seja, em suas últimas horas de vida.

-“Sério Eben, vá para casa. Tente não se preocupar. Seu pai ainda está conosco. Não vou deixa-lo partir”.

…Ela se aproximou da cama, segurou uma das minhas mãos e começou a massageá-la. Tendo como companhia apenas as máquinas e a enfermeira da noite encarregada de checar minhas reações. Phyllis passou o resto da madrugada segurando minha mão para manter uma conexão tida por ela como vital para eu atravessar tudo aquilo. …

… Me acostumei a contar tanto com minha família: com Holley (esposa) e nossos filhos, minhas três irmãs e, é claro, com meus pais. Para ser franco, nunca teria sido capaz de exercer minha profissão e ver as coisas que vi, sem o sólido suporte de amor e compreensão proporcionados por minha família.

E, por esse motivo, Phyllis ( irmã) depois de consultar Betsy (irmã) pelo celular, decidiu fazer-me uma promessa em nome de toda a família. Sentada ao meu lado, com minha mão flácida e quase sem vida entre as suas, ele me disse que, independentemente dos acontecimentos dali para a frente, sempre haveria alguém segurando a minha mão.

…-“Não deixaremos você partir, Eben. Você precisa de uma âncora para mantê-lo nesse mundo, onde necessitamos tanto de você. E nós seremos essa âncora – disse ela”

Mal sabia ela como essa âncora seria importante para mim nos dias seguintes. …

Neurocirurgião sobrevivente de infecção hospitalar crítica

Dr. Eben Alexander III

Essas palavras foram ditas pelo neurocirurgião Dr. Eben Alexander III, neurocirurgião norte-americano vítima de uma infecção devastadora pela terrível bactéria KPC. Apesar disso, durante vários dias em coma profundo, ele sobreviveu, vencendo a infecção e voltando para nos fazer importantíssimo relato sobre sua experiência de quase morte. Não deixe de ler o livro dele, sobretudo os cardiopatas congênitos e seus familiares mais próximos em especial. Lá estão as palavras mencionadas acima e muito mais, particularmente as opiniões desse medico e cientista sobre questões espirituais, além da importância da Âncora para vida nesse período tão difícil dessas vidas.

Enquanto nossos atuais governantes, bando de panacas irresponsáveis, brincam de fazer revolução bolivariana em nosso país, trazendo médicos cubanos para a catequese vermelha do povo pelo interior da nação, nós precisamos e desejamos lutar, entre tantas necessidades, por hospitais onde as UTIs deixem de ser os atuais “currais” ditatorialmente comandado por enfermeiros desprovidos de coração, e voltem a ser alas formadas por apartamentos individuais com espaço para um acompanhante familiar, ao menos, durante toda a internação e absolutamente desinfetados como determinam os protocolos de assepsia hospitalar.

O doutor Zé Pedro e seus axilares, médicos, técnicos e pessoal de enfermagem privaram nosso filho dessa possibilidade, para nós vital, ao não cumprirem a promessa feita ao Thomas e, muito provavelmente, perderam grande chance de contribuir para a recuperação dele. Talvez, decisivamente.

Ops: Postado no blog A Gruta do Lou, também.

 



About the author

Lou Mello

Fui pai de um cardiopata congênito por 25 anos. Meu filho mais novo, o Thomas Henrique nasceu em 11 de maio de 1988 com dupla via de saída no ventrículo direito, transposição dos grandes vasos na base, estenose da pulmonar com válvula atrésica, CIVs múltiplas e PCA aberto. Passou por três cirurgias, vários cateterismos, um monte de exames e tomou medicamentos a beça. Na primeira cirurgia construiram um Blalock, na segunda uma Emy Fontan cavo pulmonar e na última fizeram a correção total, com implante de uma válvula pulmonar humana dissecada. Após a cirurgia ficou internado na UTI por dez dias, quando faleceu, no dia 20 de abril de 2014, a 21 dias de completar 25 anos. Claro que o considero meu filho para sempre, onde quer que ele esteja, agora. Nosso trabalho com ele terminou, mas ele nos deixou a missão de apoiar os cardiopatas congênitos enquanto vivermos. Esse é o meu propósito principal de vida, enquanto viver.

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